Concepção e coordenação de projeto: “Porto Alegre hipotética”

28/09/2024 Compartilhe:

Esse é certamente um dos projetos mais desafiadores e gratificantes que já concebi e organizei, especialmente por todo seu significado coletivo e individual. Sinto um orgulho imenso por ter tido a ideia e ter trabalhado para que ela saísse do papel.

O contexto das enchentes:

Em maio de 2024, o estado do Rio Grande do Sul foi assolado por enchentes de proporções inéditas na região. Praticamente todo o território foi atingido. Foram mais de 180 mortos e dezenas de desaparecidos, além de milhares de pessoas desabrigadas. A wikipedia traz detalhes sobre a extensão dessa tragédia climática. Isso, no que se refere aos dados oficiais. De uma forma ou de outra, toda a população foi atingida.

Eu fui um dos diretamente afetados. Como o prédio em que eu morava na época ficava na zona alagada, os vizinhos e eu precisamos ser resgatados de barco após três dias ilhados pelas águas do Guaíba. Fiquei 24 dias longe de casa, passando por quatro cidades diferentes e carregando apenas o que coube na mochila na hora do resgate. Apesar de não ter tido danos materiais, não fiquei ileso aos dados emocionais.

Ajuda na calamidade:

Fazia menos de um mês que eu havia começado a trabalhar na programação cultural do Goethe-Institut Porto Alegre, quando as enchentes começaram. A distância, acompanhei a situação dramática de dezenas de instituições culturais da cidade impossibilitadas de operar devido aos danos diretos ou indiretos das enchentes. Por sorte, meu local de trabalho não foi uma delas, já que estava localizado em uma região alta da cidade.

Aproveitando-se dessa situação privilegiada, propus à direção que o instituto abrisse suas portas para artistas atingidos poderem se manter em atividade no período de reconstrução. Assim, durante meses, o auditório do Goethe-Institut Porto Alegre abrigou sessões de cinema, além de aulas e ensaios de música, teatro, palhaçaria e dança. Foi um apoio temporário, que se mostrou fundamental nesse período de caos coletivo, durante os esforços de restabelecimento da infraestrutura da cidade.

Uma chamada aberta:

Essa ação de solidariedade estava se mostrando muito importante, mas eu sentia falta de um projeto maior que ajudasse a cena cultural da cidade a elaborar a tragédia climática e a se recuperar financeiramente. Daí surgiu a ideia de uma chamada para uma exposição coletiva. Desde o início, eu tinha a convicção de que precisávamos evitar um tratamento documental da tragédia ambiental, pois já estávamos todos saturados com as imagens dramáticas da enchente. Em vez disso, incentivamos artistas a desenvolver trabalhos inéditos, em diferentes formatos, a partir da ideia de uma Porto Alegre que não existe, mas que gostaríamos que existisse, uma cidade em que cabem sonhos reais e imaginários, individuais e coletivos. Uma Porto Alegre possível ou utópica, conforme a imaginação e a poética de cada artista.

Para nos ajudar na elaboração do edital e na produção da exposição, convidamos a hipotética, uma editora de quadrinhos que, por já ter operado uma galeria de arte, possuía ampla experiência com exposições. Outro motivo é que o depósito da editora também havia sido atingido pelas enchentes, e muitos livros se perderam. Como se não bastasse, dessa parceria ainda surgiu o nome perfeito para o projeto.

O Goethe-Institut Porto Alegre e a editora hipotética desenvolveram, portanto, o edital para a exposição coletiva “Porto Alegre hipotética”. Foram selecionados 15 trabalhos, cada um deles recebendo um prêmio no valor de 1.500 reais. Mas não parou por aí.

Feira de arte e programação cultural:

Para a abertura da exposição, planejamos uma feira de artes gráficas no saguão e na biblioteca do prédio do Goethe-Institut Porto Alegre, com artistas e editoras diretamente afetadas pelas inundações. Assim, eles puderam colocar as suas obras à venda e angariar algum recurso financeiro para se recuperar dos danos ocorridos no início de maio. Não houve nenhum custo para que participassem da feira, e a alimentação foi fornecida pelo instituto.

Para garantir a presença de público, elaborei uma extensa programação cultural acompanhando a feira e a exposição. Assim, no dia 28 de setembro de 2024, das 10 às 21 horas, o edifício do Goethe-Institut Porto Alegre acolheu projeção de filme, debate literário, espetáculos de música e teatro, entre outros. Um fator em comum entre todos os itens da programação desse evento é que todos os envolvidos foram afetados diretamente pelas enchentes. E muitos dos grupos que se apresentaram nesse dia estavam usando os espaços do instituto para aulas e ensaios.

O café do Goethe-Institut Porto Alegre, que estava fechado há anos, foi reaberto especialmente para esse dia. Também houve venda de cervejas artesanais. E até mesmo essa oferta gastronômica ficou a cargo de pessoas que sofreram diretamente com as enchentes.

Foi um dia lindo, e o público compareceu em cheio. Havia no ar uma energia muito especial, não penas pela ampla e variada oferta cultural, mas também pela comoção causada pela tragédia climática. Dava para sentir um espírito de solidariedade coletiva por tudo que a cidade tinha passado e ainda estava enfrentando.

Finalizando o projeto:

Dois meses depois, finalizamos a exposição de uma forma mais intimista, envolvendo apenas os artistas. Na biblioteca do instituto, organizamos uma roda de conversa, onde cada um pôde contar como vivenciou as enchentes. Ao fim desse momento de catarse coletiva, a exposição foi desmontada de maneira quase ritualística, com cada artista levando sua obra para casa.

Registros e outras informações:

Abaixo, é possível ver o cartaz de divulgação da feira, desenvolvido a partir da obra “Jardim de um futuro possível” de João Salazar, uma das contempladas no edital “Porto Alegre hipotética”.

As fotos do evento apresentadas aqui são do fotógrafo Antonio Mainieri.

E o vídeo abaixo registra um dos inúmeros momentos comoventes desse dia, quando a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz realizou uma performance na frente do instituto, incluindo uma dança de roda com o público. A gravação foi feita por mim sob forte comoção, afinal a Terreira da Tribo, sede desse tradicional grupo de teatro, havia sido severamente atingida pelas enchentes de maio, causando perda de equipamento, cenários, figurinos e o local de aulas e ensaios.

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Data do evento: 28 de setembro de 2024
Local: Porto Alegre, Brasil

Programação completa:

10h15 – Sessão do cineclube do Clube de Cinema de Porto Alegre, em parceria com a Cinemateca Paulo Amorim
Exibição do documentário “Mirante” de Rodrigo John seguida de conversa com Leonardo Brawl Márquez (Translab.Urb)
AUDITÓRIO

12h30 – Espetáculo “Memórias”
[Projeto selecionado no Edital Extraordinário de ocupação da Biblioteca do Goethe-Institut Porto Alegre]
AUDITÓRIO

13h15 – SOUL 51 – “E Depois da Água?” Poesias e canções no período das enchentes por Léo Monassa e Vitor Goiz
[Projeto selecionado no Edital Extraordinário de ocupação da Biblioteca do Goethe-Institut Porto Alegre]
AUDITÓRIO

14h – abertura oficial da exposição “PORTO ALEGRE HIPOTÉTICA”
GALERIA

14h15 – Performance audiovisual “Como Sonhou Mano Tesla”
[Obra selecionada na chamada Porto Alegre hipotética]
GALERIA

15h – Conversa literária: Julia Dantas, Irka Barrios e Guto Leite
AUDITÓRIO

16h15 – Esquetes “Territórios do Riso”
JARDIM, ESCADAS EM FRENTE AO PRÉDIO E SAGUÃO

17h – Performance “Eu protejo a humanidade, a humanidade me protege”
ESCADAS EM FRENTE AO PRÉDIO

18h – Pocket show Marcelo Delacroix
GALERIA

19h30 – Show de encerramento Pâmela Amaro + Lucas Kinoshita
AUDITÓRIO

Artistas da exposição coletiva:

Alexandre De Nadal, Ali do Espírito Santo, anaiáiá, Ana Paula Bertoldi, Andressa Ahlert, Anelise De Carli e Camila Proto, Denny Chang, Eulália Manual, Fabiano Gummo e Marcelo Armani, João Salazar, Lael Peters, Raquel Brust, Santiago Pooter, Tali Grass e Wagner Mello.